Tom Petty recupera antiga banda

Os Mudcrutch, liderados pelo distinto Tom Petty, formaram-se em 1970… Em 2008 lançam o seu álbum de estreia, “Mudcrutch”. Causaram sensação no início dos anos 70, mesmo sem nenhum disco no mercado. Mas o sucesso posterior de Tom Petty com os Hearbreakers afastou os Mudcrutch para o segundo plano e até para a inactividade.

Êxitos mundiais com os Heartbreakers como ‘Learning to Fly’ ou ‘I Won’t Back Down’ deram uma imagem limpinha de Tom Petty como um músico de sonoridade pop/rock orelhuda que não colidiria numa play-list radiofónica de temas consensuais de gente experimentada. Uma sequência de canções como ‘On the Turning Away’ dos Pink Floyd, ‘Don’t Get Me Wrong’ dos Pretenders e ‘Tunnel of Love’ de Bruce Springsteen nunca seria manchada se seguida por um ‘Free Fallin’ de Tom Petty.

O excelente álbum dos Mudcrutch esclarece melhor, contra mal-entendidos mediáticos, quem é verdadeiramente Tom Petty: uma figura mais bucólica e menos óbvia, e um descendente assumido de Bob Dylan numa linha igualável ao falecido Warren Zevon

O Tom Petty que integrou a banda ao vivo da Never Ending Tour de Dylan nos idos anos 80 está mais próximo da encarnação que lidera este projecto do que daquele dos anos de sobre-exposição na MTV do final dos 80s e do início dos 90s.

Aliás, a sombra de Bob Dylan está por todo o lado em “Mudcrutch”, intrometendo-se como um timoneiro dos devaneios eléctricos colectivos trans-estilísticos, e indo ao ponto do seu espírito se fazer notar na entoação seca e na voz anasalada de Tom Petty. “Mudcrutch” podia misturar-se na discografia recente de Dylan, entre um “Love and Theft” (de 2001) e um “Modern Times” (de 2006), e isso é um elogio tremendo porque fugir da sua referência-mor não é coisa que Tom Petty pretenda.

Solos de guitarra finos, muito piano blues e uma grande alegria em tocar que os incentiva a arriscar na repetição por mais uma e outra vez dos mesmos acordes originam um amontoado tremendo de valentes canções que fazem de “Mudcrutch” um álbum recomendadíssimo.

O tom pachorrento country da praxe do disco vai desacelerando o animado híbrido que acerta em cheio no ponto de transição entre os blues eléctricos e o rock & roll. E vai havendo, irregularmente, um ou outro momento mais insólito, como o concentrado country e sem distrações rock & roll de ‘Orphan Of The Storm’; um instrumental blues-billy, ‘June Apple’, que poderia caber às mil maravilhas naquelas maravilhosas bandas sonoras dos filmes de Quentin Tarantino (que fazem do realizador um autêntico musicólogo americano); ou o encerramento bluegrass e suave de ‘House of Stone’.

O velho gangue de Tom Petty dá assim uma abismal lição musical de americanidade.

fonte: Gonçalo Palma

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